|
Introdução
Deni Lineu Schwartz-Filho
Sebastião Laroca
Solange Regina Malkowski
Entre os insetos, as abelhas são os organismos mais bem conhecidos
e estudados, especialmente as espécies sociais e particularmente
a Apis mellifera (abelha doméstica), espécie
universalmente reconhecida. A superfamília Apoidea agrupa as várias
famílias de abelhas, apresentando uma diversidade de aproximadamente
20.000 espécies descritas (Michener, 2000). Silveira et al. (2002),
contabilizaram 1.576 nomes válidos para espécies de abelhas
no Brasil, porém os autores acreditam que esse número deva
chegar a aproximadamente 3.000 espécies, das quais estimamos que
aproximadamente 450 possam ocorrer no Estado do Paraná. Entre
as espécies sociais, destacam-se os Meliponinae (uma subfamília
de Apidae), conhecidos popularmente como “abelhas indígenas sem
ferrão”, que têm no Brasil uma grande riqueza de espécies,
aproximadamente 250, das quais cerca de 35 devem ocorrer no Paraná.
É provável que o número de espécies de abelhas
no planeta e especialmente no Brasil seja muito maior, pois grande parte
das espécies não foi sequer descrita pela ciência
e certamente muitas delas já estão extintas sem terem sido
amostradas. A extinção de espécies deste grupo é uma
grave perda para os ecossistemas, pois esses insetos são os maiores
polinizadores da natureza. Nos biomas neotropicais são freqüentes
espécies vegetais polinizadas por apenas poucas espécies
de abelhas, relações essas bastante estreitas, moldadas
ao longo de processos coevolutivos que geram a interdependência
das espécies. Nestes casos, a extinção dos polinizadores
específicos pode levar à extinção da planta.
Desde a década de 1960, tem se desenvolvido no Brasil,
e especialmente no Estado do Paraná, uma série de estudos
sobre a ecologia das comunidades de abelhas silvestres. São estudos
baseados em métodos padronizados que permitem o levantamento de
dados qualitativos e quantitativos das populações e comunidades
desses organismos (p. ex. Sakagami et al., 1967; Schwartz-Filho & Laroca,
1999). A riqueza de espécies, em conjunto com o emprego desses
métodos, torna plausível o uso das abelhas como indicadores
de diversidade biológica e qualidade ambiental, uma vez que grande
parte das espécies é extremamente sensível a alterações
do meio. Também o emprego de um método padrão em
diferentes tempos, em um mesmo local, permite a avaliação
da perda de diversidade de espécies ao longo do tempo, sendo possível
correlacioná-la a diferentes pressões antrópicas.
Na primeira lista de espécies ameaças de extinção
no Estado do Paraná (1995), não foram incluídas
espécies de abelhas. O grupo foi abordado nas listas de Minas
Gerais (1995), com uma espécie considerada “vulnerável”,
São Paulo (1998), com três espécies “em perigo de
extinção” e uma “provavelmente extinta”, Rio Grande do
Sul (2002), com cinco espécies “vulneráveis” e outras cinco “em
perigo de extinção”, e na última lista brasileira
(2003), com duas espécies VU e uma CR. A lista fluminense de 1998,
ao abordar os invertebrados terrestres (Otero et al., 2000),
não relacionou himenópteros. Na presente lista paranaense
incluímos seis espécies como VU, sete como EN e cinco como
CR, totalizando 18 Apoidea. Esses números, bem maiores que os
constantes nas demais listas estaduais e na lista nacional de 2003, são
decorrentes de ser o Paraná um dos estados mais bem amostrados
do País e possuir vários biomas, alguns extremamente ameaçados.
Entre as espécies de abelhas silvestres que possuem maior probabilidade
de extinção estão as altamente endêmicas e
de distribuição geográfica restrita, principalmente
se o endemismo ocorrer em ecossistemas extremamente ameaçados
como é o caso, no Paraná, do Cerrado (Savana Arborizada)
e dos Campos Naturais (Estepe Gramíneo-Lenhosa). Nessa situação
se enquadram algumas das espécies citadas na presente análise,
como Melissoptila fulvonigra, Osirinus santiagoi, Paratetrapedia larocai, Melipona quinquefasciata, Mourella caerulea, Schwarziana quadripunctata e Melissoptila claudii.
Nesses dois ambientes, o número de espécies ameaçadas é alarmante,
principalmente porque o Paraná é o limite meridional da
distribuição dos campos cerrados, que atualmente se resumem
a pequenos relictos extremamente fragmentados e alterados. No caso dos
Campos Naturais a situação também é crítica,
pois atualmente há um avanço da atividade agrícola
sobre esse ecossistema, anteriormente explorado quase que exclusivamente
pela pecuária extensiva. A preservação imediata
desses ambientes é a única medida eficaz para evitar a
extinção de suas espécies endêmicas.
Espécies altamente especializadas, oligolépticas
ou mesmo monolépticas, como Niltonia virgilli,
que visita flores tubulosas como as de Jacaranda puberula (Bignoniaceae)
para obter os alimentos de que necessita, e espécies com comportamento
parasitóide, como é o caso de Osirinus santiagoi,
que “parasita” outras espécies de abelhas em parte de seu ciclo
reprodutivo, são extremamente sensíveis a alterações
do meio, pois exigem condições específicas só existentes
em hábitats equilibrados e preservados. Tais espécies,
que possuem populações naturalmente pequenas, sofrem profundamente
os efeitos da fragmentação dos seus hábitats, tendo
portanto maior probabilidade de extinção. Esse também é o
caso da Lestrimelitta ehrhardti, uma espécie
cleptobiótica que está no topo da cadeia alimentar dos
Meliponinae e obtém todos os alimentos e materiais de que necessita
exclusivamente através de saques às colônias de outras
espécies do grupo (Sakagami & Laroca, 1963). Isso faz com
que a sobrevivência dessa espécie dependa da manutenção,
em equilíbrio, de todas as populações de Meliponinae.
Especificamente no caso dos Meliponinae, outro fator que
contribui para a extinção das espécies é a
dificuldade da manutenção de populações geneticamente
viáveis,
uma vez que para atingir essa viabilidade são necessárias
44 ou mais colônias de cada espécie, pois a homozigose nos
alelos relacionados com a determinação sexual, causada
por endocruzamento, pode levar as colônias à morte em aproximadamente
15 gerações. Essa conseqüência é conhecida
como “efeito Yokoyama & Nei” (Kerr et al., 1996) e tende
a ser potencializada principalmente em hábitats fragmentados,
onde o fluxo gênico fica impedido ou dificultado. Os Meliponinae
possuem pouca capacidade de migração e, portanto, exigem
grandes áreas contínuas para manter suas populações
viáveis. Nesse aspecto, é fundamental a preservação
de grandes áreas contínuas de hábitats bem preservados
e, a longo prazo, o emprego de técnicas que envolvam o manejo ex
situ, a reintrodução e a translocação
de colônias, visando o aumento gradual do fluxo gênico entre
as populações.
Outra ameaça potencial às espécies
de abelhas silvestres relaciona-se à introdução
no Brasil da abelha européia
(Apis mellifera) e posteriormente a introdução
da variedade africana dessa mesma espécie. É possível
que a dispersão dessa abelha alienígena tenha causado impacto
direto sobre as populações das espécies indígenas,
pois a A. mellifera, principalmente quando cruzada com a variedade
africana (conhecida como abelha africanizada), comporta-se tipicamente
como uma espécie invasora, ou seja, possui grande capacidade biológica
adaptativa e de colonização, tendo se disseminado rapidamente
por todo o continente. Até o momento não foi possível
mensurar o impacto real da Apis sobre as populações
das espécies nativas de abelhas, entretanto é possível
que esse impacto seja maior em áreas alteradas e com grande concentração
de plantas colonizadoras, uma vez que a Apis é capaz
de beneficiar-se desse tipo de ambiente. O impacto da Apis também
seria maior sobre as espécies com porte físico semelhante,
como Melipona bicolor, M. quinquefasciata e M. mondury,
com as quais poderia ocorrer competição pelo nicho trófico.
A destruição e fragmentação dos hábitats
e o desmatamento são as causas mais diretas e imediatas da redução
da diversidade de espécies de abelhas, não só pela
redução dos recursos florais, como pela escassez de locais
para nidificação. Os Meliponinae, em particular, utilizam
muitas vezes troncos de árvores de grande porte para instalação
de colônias e a falta desses locais pode impedir a manutenção
de suas populações naturais. Outro fator que pode levar à extinção
rápida de espécies do grupo é a utilização
indiscriminada de inseticidas e pesticidas agrícolas, que são
letais a todos os insetos polinizadores.
Para algumas espécies de Meliponinae, a utilização
de técnicas para a manutenção em cativeiro de colônias,
principalmente das espécies nativas de cada região, somado
ao uso da multiplicação artificial das colméias,
pode favorecer as populações naturais, além
de propiciar uma alternativa de renda aos produtores. Entre as espécies
ameaçadas que poderiam ser passíveis de manejo,
encontram-se Melipona bicolor e M. mondury,
sendo necessários, entretanto estudos prévios quanto ao
manejo em cativeiro dessas espécies.
|